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Os céus depois dos dias

Adoro os dias depois dos dias chuvosos.

Encantam-me sobretudo os céus dos dias depois dos dias chuvosos.

A visão é de que as coisas ficam despidas, mais puras.

De que a absolvição, e a monção, enxugaram a maldade do mundo.

 

 

Adoro os céus dos dias depois dos dias chuvosos.

As imagens são mais nítidas, polidas e a percepção é fácil.

Dói-nos menos a cabeça de pensar.

São a imagem do calor afável da liberdade.

 

 

Os céus dos dias depois dos dias chuvosos são primaveras concentradas.

São aquela sensação de que a vida só tem por onde melhorar.

 

 

Enfim, são a esperança renascida para quem esteve perto de naufragar na chuva.

Adoro os céus dos dias depois dos dias chuvosos.

Särut

“Se queres tê-la… Quando estiverem perto de se beijar, não o faças. Podes ir embora descansado.”

C.C.

As I fall I leave a scar upon the sky
A simple note for you, I wait for your reply
And in your answer I regain my will to try

So hover in the diving light
We will rip the night
Out of the arms of the sun one more time
Close your eyes and we will fly
Above the clouded sky
And over the dumbstruck world we will run

C.C.

-Te.

Ando-me carecido de uma mão quente.

Da leveza de cabelos que me penteiam a face.

Da mirada que me acolhe sem indagações.


Não especialmente teus,

Não particularmente de toda a gente.


É verdade que os saboreio pontualmente,

E contudo, perene está a fraqueza da insaciedade.

É verdade que Os-sinto no ocaso do que fui.

Sou.


Tenho-me libertino mais do que a consciência mo permite.

E porém,

Não me condeno na indigência.


Porque deixaria que o faças?

Cala.

Dor de ti

O dia está. Tenho o sol a acarinhar-me quando saio para a rua. Dou um passo. Outro. Muitos em direcção a baixo. À praia. Lá chego num sussurro, com a mente em constante sobressalto. Procuro-te como sempre fiz e já não sei o teu nome. Sei os teus caminhos, aqueles que já te trouxeram para perto de mim e não mais o fazem. No chão, a areia fria grita-me. Não mais vou ser revolvida por vós. Sai-me uma carícia que não acontece e uma risada inocente. Subo ao penedo que não mais te incomodará. Pela dureza, pelo frio, pela solidão. Por tudo. Aquilo que, agora, apenas a mim me é concedido e consome. Desço e chego à água. Pés molhados, macios. Da água que me arrebata. Curvo-me e choro-me. Invade-me a dor de ti. A dor de tudo o que de bom me foste. Me és. Coloco as mãos e confundo-me em lágrimas e em água salgada. Baixo a cabeça. E levanto-me. Estou de volta a casa. Está tudo bem. Não te preocupes.

The most JP

The summer is coming to an end
We ain’t gonna let that slow us down one bit
Til that sunset will start to fade
They’re gonna drag us screaming from these old riverbanks

We love the rain the most when it stops

[Para vocês.]

Verde Vagabundo

[6]

Simples. Preta. Gostava delas assim, descartáveis. Não entendia aqueles que usavam anos a fio a mesma caneta. Razões sentimentais ainda tolerava, mas galanteios e superstições, não entendia. Não percebia de arte, não tinha formação nem interesse, mas sabia o que era um instante de saborosa contemplação. Isso chegava. E caneta que escrevesse deveria ser efémera.

Ainda hesitou algumas vezes. Coçou a testa. Escreveu. O papelão irregular não ajudava, mas registava.

Azar

Decides, mas não escolhes, perdes.

A decisão não te dá o que perdes-te,

Nem ganhas o que ganhas-te.

Porque o ganho era teu

Se não o tivesses de escolher.

Tens, infelizmente, o poder da escolha.

Fosses ingénuo e não perderias.

Não sorrias na escolha.

Chora e volta a chorar.

Tiveste de escolher, chora. Azar.

Os seus pais haviam morrido, nas palavras do P. Firmino, pela vontade de Deus. Para ele tinha sido mais pela bebedeira do anormal que chocara frontalmente com eles na nacional 224. Talvez, aí sim, pela vontade Dele, o Vasquinho tinha ficado em casa dos padrinhos para brincar com as primas, enquanto os pais iam dar um passeio. O único salário que sustentava duas filhas e não dava para mais um. Foi parar ao Centro.

Apenas cinco anos contados não chegaram para enganar a dor. Sentiu-o. Muito. Mesmo lá. Coração. A ausência forçada dos pais. A morte dos pais. Nunca teve medo de o dizer ou pensar, embora soubesse que era um assunto que assustava os outros. Não era indiferente, mas não era cativo também. Cresceu com o Manel ao lado. No beliche de cima também. O amigo foi lá parar com mais sorte do que ele. Sorte? O pai era vivo. A mãe não. Mas a vivacidade do pai era demasiada na hora em que chegava a casa guiado pelo vinho, tirava a vassoura de trás da porta e. Não lhe guardava rancor, ao pai. Pelo menos foi o que o colega lhe disse algum tempo antes de fugir. O Vasco.