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Simples. Preta. Gostava delas assim, descartáveis. Não entendia aqueles que usavam anos a fio a mesma caneta. Razões sentimentais ainda tolerava, mas galanteios e superstições, não entendia. Não percebia de arte, não tinha formação nem interesse, mas sabia o que era um instante de saborosa contemplação. Isso chegava. E caneta que escrevesse deveria ser efémera.
Ainda hesitou algumas vezes. Coçou a testa. Escreveu. O papelão irregular não ajudava, mas registava.
Azar
Decides, mas não escolhes, perdes.
A decisão não te dá o que perdes-te,
Nem ganhas o que ganhas-te.
Porque o ganho era teu
Se não o tivesses de escolher.
Tens, infelizmente, o poder da escolha.
Fosses ingénuo e não perderias.
Não sorrias na escolha.
Chora e volta a chorar.
Tiveste de escolher, chora. Azar.
Os seus pais haviam morrido, nas palavras do P. Firmino, pela vontade de Deus. Para ele tinha sido mais pela bebedeira do anormal que chocara frontalmente com eles na nacional 224. Talvez, aí sim, pela vontade Dele, o Vasquinho tinha ficado em casa dos padrinhos para brincar com as primas, enquanto os pais iam dar um passeio. O único salário que sustentava duas filhas e não dava para mais um. Foi parar ao Centro.
Apenas cinco anos contados não chegaram para enganar a dor. Sentiu-o. Muito. Mesmo lá. Coração. A ausência forçada dos pais. A morte dos pais. Nunca teve medo de o dizer ou pensar, embora soubesse que era um assunto que assustava os outros. Não era indiferente, mas não era cativo também. Cresceu com o Manel ao lado. No beliche de cima também. O amigo foi lá parar com mais sorte do que ele. Sorte? O pai era vivo. A mãe não. Mas a vivacidade do pai era demasiada na hora em que chegava a casa guiado pelo vinho, tirava a vassoura de trás da porta e. Não lhe guardava rancor, ao pai. Pelo menos foi o que o colega lhe disse algum tempo antes de fugir. O Vasco.